Antidepressivos melhoraram a saúde do meu marido. Mas seguimos sem transar – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Meu namorado passou por um processo depressivo, que o deixou muito abatido. Naquela época mal chegávamos a nos tocar. Ele começou a tomar antidepressivo, que o tirou do sofrimento, mas a libido não voltou ao normal. O que fazer?

Sim, a maior parte das pessoas com depressão sentem pouca ou nenhuma vontade de fazer sexo. Existem exceções em alguns casos de humor ciclotímico (alternância entre depressão e euforia, por exemplo), mas de qualquer maneira, com desejo preservado ou não, o transtorno já provoca uma série de agravos na vida da pessoa. Para o grupo afetado, a autoestima fica bastante comprometida e a vida, de modo geral, cinza e sombria. O antidepressivo tira esse peso e ajuda a reascender a motivação, bem como o interesse da pessoa em se relacionar com os outros. E se sexo e afeto são movidos por energias que promovem prazer e proximidade, então seu efeito por si só já é positivo.

Mas existem vários antidepressivos que causam um efeito negativo sobre o desejo, inibindo-o. Ou seja, você tem uma melhora expressiva de sua condição emocional, mas percebe o interesse pelo sexo diminuído. No entanto é importante reforçar que a memória erótica não vai embora e uma pessoa que goste de sexo poderá ser movida por ela.

Antidepressivos são medicamentos indicados para o tratamento de depressão, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), síndrome do pânico e outras doenças. Para melhorarem o humor e a ansiedade agem de maneira complexa, principalmente aumentando a ação de substâncias do cérebro chamadas de serotonina, noradrenalina e/ou dopamina. Mas essas ações podem levar também a uma série de efeitos colaterais.

Além disso, os antidepressivos agem como anticolinérgicos, anti-alfa adrenérgicos e anti-histamínicos, que também são responsáveis por efeitos indesejáveis. Assim, a função sexual pode ser uma das atingidas por essas medicações. Alguns, por exemplo, são excelentes para ajudar em casos de ejaculação precoce primária, pois retardam o orgasmo como um efeito colateral; medicação não bem indicada para mulheres, que normalmente levam mais tempo para chegar ao orgasmo do que homens.

Como há vários grupos de antidepressivos e nem todos tem o mesmo efeito sobre a resposta sexual, é fundamental que seu namorado converse com o médico e siga o tratamento direitinho. Às vezes é possível trocar de medicamento, dar intervalo, diminuir a dosagem ou associar outro, mas tudo depende da condição emocional dele. Paciência, pois também há casos nos quais os efeitos indesejados desaparecem espontaneamente.

E aí, tem o seu lado. Pouco se vê na literatura cientifica trabalhos feitos com as parcerias das pessoas acometidas pela depressão ou outros transtornos. Quando ela não é incapacitante, normalmente os pacientes vão sozinhos ao psiquiatra e ao psicólogo, que não incluem no trabalho psicoterapêutico o convite para explicar aos parceiros e parcerias a condição emocional de seus pacientes.

Então, você depende da capacidade do seu namorado em lidar com o maior problema da doença: a vergonha. Mesmo que quase 6% da população brasileira tenha depressão, segundo uma pesquisa do IBOPE, mais de 63% da população de 25 a 34 anos não contariam para a família que sofrem do transtorno. Imagina-se que também, em relacionamentos amorosos iniciais, seja difícil contar para a outra pessoa sobre a sua condição, o que pode gerar fantasias desastrosas sobre a sexualidade: “não me deseja”; “está sendo infiel”.

Sugiro que converse de maneira franca com ele, sobre suas percepções, desejos e necessidades. Lembre-se que se vocês têm boa química e sexo de qualidade, mesmo que falte ímpeto físico, o desejo poderá ser mobilizado por momentos de carinho e com outros estímulos eróticos. Talvez você tenha que ser mais ativa no jogo erótico. Se não está acostumada, será uma ótima oportunidade para desenvolver essa habilidade.

 

 

Leia também no Portal UOL Universa: Antidepressivos melhoraram a saúde do meu marido. Mas seguimos sem transar

Imagem:  PeopleImages/Getty Images

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