Por que você transa? – Mina Bem Estar

Ensinadas a associar sexo a vínculo e conexão, muitas mulheres têm o desejo atravessado por múltiplos fatores emocionais e sociais. Mas não precisa ser assim. O sexo também pode ser uma fonte de regulação do bem-estar, embora esse ainda seja um território pouco explorado pelas mulheres.

Por: Ana Canosa

Bianca, 27 anos, relata queda importante do desejo sexual depois do nascimento do filho, João. Sente-se exausta, ansiosa, pouco dona do próprio tempo e desconectada do corpo, que agora enxerga com estranhamento. Valéria, 38, enfrenta uma menopausa “forçada” em decorrência do tratamento para endometriose. Diz que não é só o sexo que perdeu cor: a vida inteira parece ter ficado mais opaca. Márcia, 43, vive o luto pela morte da mãe, de quem era profundamente ligada, e a ideia de transar com a parceira simplesmente não encontra lugar dentro da dor. Paula, 45, vive um auge profissional e está completamente capturada por esse momento. Sexo continua sendo bom, mas, agora, não ocupa o centro da sua energia.

Júlia, 42, está em pé de guerra com o marido. A raiva, a indignação e o ressentimento sequestram qualquer possibilidade de entrega erótica. Mónica, em uma relação estável há oito anos, percebe que a rotina doméstica, a previsibilidade e o excesso de função apagaram o brilho do erotismo. Poderíamos seguir: Sílvia, 36, começou um antidepressivo e sente o corpo mais lento; Denise, 51, virou cuidadora do pai doente e não sobra espaço psíquico para o desejo; Renata, 33, ama a parceira, mas se afastou tanto de si mesma que já não sabe mais o que a excita.

Para muitas mulheres o sexo como fonte de regulação de bem-estar ainda é um território pouco conhecido

Baixa de desejo sexual tem, sim, componentes físicos. Hormônios, dor, cansaço, privação de sono, medicações, doenças, menopausa, pós-parto: tudo isso pesa. Mas reduzir o desejo à biologia é um empobrecimento. Como a gente viu nos exemplos acima, o desejo também responde ao humor, à qualidade da relação, à imagem corporal, à sobrecarga mental, ao luto, ao estresse, ao tédio e ao modo como cada pessoa aprendeu a habitar o próprio erotismo.

A flutuação do desejo é comum em homens e mulheres, mas costuma aparecer mais entre as mulheres, em parte porque seu corpo hormonal pode ser mais oscilante e em parte porque o contexto tem um impacto enorme sobre a excitação. Ainda assim, seria um erro imaginar que a explicação está toda aí. Muitos homens, mesmo com saúde e níveis hormonais estáveis, também vivem queda de desejo. Ou seja: o corpo importa, mas não conta a história inteira.

Talvez uma diferença importante esteja em outra pergunta: por que eu faço sexo? Muitos homens, por condicionamento cultural, aprendem a valorizar não apenas a conexão e a intimidade, mas também os efeitos físicos do sexo sobre o próprio corpo. Fazem sexo para descarregar tensão, relaxar, dormir melhor, aliviar ansiedade, melhorar o humor, celebrar, sair da irritação. Já muitas mulheres foram educadas a associar sexo ao amor, ao clima, ao vínculo, ao sentir-se desejada. Quando o apelo físico espontâneo diminui — seja por oscilação hormonal, cansaço, rotina ou menor encantamento — o sexo como fonte de regulação de bem-estar ainda pode ser um território pouco conhecido. Como se ele só pudesse acontecer quando vem acompanhado daquele impulso arrebatador. É aqui que entra um aprendizado importante: o desejo nem sempre nasce pronto, mas pode ser mobilizado.

O chamado desejo responsivo, aquele que responde a estímulos visuais, imaginativos, literários, sensoriais ou ao toque da parceria, é uma via possível em fases da vida que jogam contra o desejo espontâneo. Isso não deveria servir para agradar a outra pessoa ou apenas “salvar a relação”. Deveria servir, antes de tudo, para reconectar a mulher consigo mesma e com o próprio direito ao prazer. Porque sexo — com alguém ou na masturbação — pode ser descanso, presença, vitalidade, descarga, curiosidade, energia. Pode ser, inclusive, um jeito de voltar a se sentir viva dentro do próprio corpo e ser desejante na vida.

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