Ana Canosa – Colaboração para Universa
Desespero é a palavra que Robson escolhe para definir o seu sentimento do momento. Me escreve pedindo ajuda, pois a mulher, que ele descreve como ‘linda, íntegra, trabalhadora, mãe exemplar, feminista, e acima de tudo, um amor pela minha pessoa de um modo indescritível (…)” descobriu que ele a estava traindo por 3 anos e que ela “(…) não merecia uma traição da minha parte”.
Pois é Robson, não merecia mesmo. Só quem é traído conhece essa dor. Mesmo que a gente saiba que o desejo por outras pessoas existe, ainda assim fica difícil não comparar, se auto depreciar, achar que todo o investimento material e emocional na relação não valeu de nada. É um susto, revira a gente do avesso.
De repente você olha para a sua parceria e se pergunta quem ela é afinal, o que não enxergou, o que não fez, onde estava enquanto o outro se divertia por aí.
Mas eu não estou aqui para alimentar o seu sentimento de culpa, porque ele só martiriza e é preciso se perdoar, mas para chamar-lhe à responsabilidade afetiva: chegou o momento de entender por que escolheu a infidelidade como caminho para dar vazão a seu desejo.
Sim, você pode ser do time que acha melhor fazer tudo bem escondidinho e não contar nunca, pois pensa que é impossível a parceria compreender a realidade e o casal endereçar de outra maneira; que é possível viver em paralelo sem que isso respingue na relação – talvez, né? – desde que não se descubra o segredo.
Dizer: “estou interessado em outra pessoa, o que faremos com isso?” é duro, mas é muito pior quando a mentira e a manipulação já fizeram morada na relação.
Então Robson, talvez você tenha sido iludido pela covardia dos que não conseguem enfrentar seus dilemas de peito aberto e cara limpa, ou o narcisismo dos que acham que merecem tudo, mesmo que esse não seja o acordo, talvez a vergonha de quem sente que está descumprindo acordos, quem sabe o medo de ser julgado e perder o amor e a admiração. Talvez de tudo um pouco, já que somos tão humanos e imperfeitos.
Daí, acreditamos mesmo que mentir é mais fácil e evita um monte de transtorno. Ah, humanos, que acham que controlam tudo.
Mas Robson, vamos lá. Compreender o que fez você mentir por tanto tempo – ele afinal saia para fazer sexo com outra mulher enquanto dizia que estava trabalhando – é o primeiro passo. Talvez, lá dentro de você, a monogamia não faça sentido. Que trair é um valor agregado, que é inevitável, faz parte da vida. Que sugerir abrir a relação é impensável, já que quando você imagina a sua esposa nos braços de outro, gemendo e chamando ele de gostoso – como faz com você – sente uma dor no peito que prefere “nem pensar”.
A infidelidade traz a discussão sobre a natureza errante do desejo. A possibilidade de ter mais de um afeto. Questiona essa ideia de um único amor ou corpo desejado. Coloca a satisfação conjugal e sexual na balança da existência (eu mereço mais prazer e diversão?). E é exatamente esse o trabalho a fazer. Refletir, conversar.
Mais do que se culpar e pedir perdão de joelhos (sim, desculpas são fundamentais, por tê-la feito sofrer), você precisa dar um mergulho na sua personalidade e responder algumas perguntas: você precisa de variação sexual? Precisa de novidade e de aventura para se sentir vivo e feliz? Ama o jogo da sedução para alimentar o seu ego e a sua autoestima?
Porque a sua mulher pode ser a mais interessante do mundo, e mesmo assim você olhar para a vizinha. Desejá-la. Não há nada de errado com a sua esposa, a questão não é ela, é como você quer vivenciar seus desejos.
Eu sei que esse é o caminho mais difícil. Requer que você se recolha e saiba que sim, pode viver sem a sua esposa – ele me diz que acha que não conseguiria -, que sim, pode viver sozinho e ter outras relações, que sim, pode ter uma vida sexual mais livre e variada, a depender dos acordos que fizer com as suas parceiras. Que está tudo bem fazer escolhas diferentes do casamento tradicional. Que merece ser feliz, assim como a sua esposa, – que segundo ele está desolada e distante.
Embora Robson me diga que esteja revendo seus valores, para adequar-se aos contornos da vida monogâmica, reforço que não se chega a essa conclusão na fase de desespero, quando a gente quer mesmo que tudo “volte ao normal”. Robson, te digo que não volta nunca mais, mas isso não é de todo ruim.
Um casamento pode sim resistir a infidelidade, porque a gente não joga 13 anos de vida em comum pela janela, por causa de uma traição, que você é mais do que só o desgraçado infiel. Você mesmo reforça que se amam. Mas o amor não suporta tudo e ele não é o bastante para a satisfação conjugal.
Como você me diz que não é a primeira vez que isso acontece, então tem aí uma necessidade sua. E se é necessidade, tanto você como a sua esposa precisam conhecê-la para então decidir o que fazer. E ouvir o desejo dela. Não tenha pressa. Sugiro que busquem ajuda de uma terapeuta de casal e se joguem de cabeça. O resultado pode ser surpreendente.
Leia também no Portal UOL Universa: https://www.uol.com.br/universa/colunas/ana-canosa/2022/02/26/esposa-descobre-traicao-e-marido-se-desespera-da-para-manter-o-casamento.htm
Imagem: UOL Universa – Getty Images










