Como Rebeca, Andrea Beltrão mostra que mulheres casadas também se masturbam – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Nessa semana a atriz Andrea Beltrão protagonizou uma cena de masturbação durante a novela “Um lugar ao sol” —que, embora bastante sutil, deu o que falar. Muitas pessoas comemoraram o fato de a masturbação feminina enfim ter galgado status na vida das personagens, mostrando que sim, mulheres se masturbam independentemente de orientação sexual, idade ou estado civil.

Para quem tem um relacionamento de compromisso, a masturbação na maior parte das vezes não é uma compensação por uma vida sexual pobre ou insatisfatória, mas uma maneira de descarregar tensão sexual diferente daquela obtida com a parceria; talvez mais livre para que se acionem fantasias sexuais e estímulos excitatórios específicos. Toda interação com alguém exige flexibilização, às vezes evoca sentimentos nem sempre positivos —portanto, a masturbação é uma curtição descompromissada com as expectativas da outra pessoa. O compromisso é tão somente consigo mesmo.

Mas a masturbação da personagem Rebeca teve um contexto interessante: enquanto quer conversar sobre suas angústias com o marido Tulio, ser abraçada e ouvida, ele parte logo para uma tentativa de sexo dizendo para ela “deixar de ser dramática”. A recusa dela faz com que ele fique frustrado, e reaja com a frieza e arrogância dos que acham que a vida gira em torno do seu próprio umbigo.

Aqui, o dramático é ele, mas é óbvio que ele jamais admitiria. Afinal, Tulio é o sujeito que desvaloriza tudo que a mulher fala e faz, trata mal e, para completar com a cereja do bolo, busca mulheres mais jovens para afirmar a própria masculinidade. Enquanto Rebeca procura aprofundar a meia-idade feminina e suas complexidades, como o sentido do casamento, o desejo sexual, a maturidade, as perdas e as potências, ele repete o clichê dos clichês da vida real.

A cena da masturbação vem afirmar que as mulheres já não topam fazer sexo porque os seus maridos desejam, que o prazer pode ser obtido no próprio corpo e que para ser desejante no mundo não dá para ficar ao lado de alguém que faz de tudo para manter você insegura e com autoestima baixa. Esse tipo de parceiro, definitivamente, não dá tesão.

Acredito também que mais do que a masturbação da mulher, a cena mobilizou parte do público porque escancarou a verdade de muitas relações por aí. Ela revelou a solidão de casamentos, os desejos não compartilhados, a dúvida sobre a satisfação emocional e sexual.

Há também os que questionaram se o conteúdo é adequado ou não para a TV, tem quem ficou tímido por estar com os pais no mesmo ambiente. Rolou aquele silêncio constrangedor. Mas há muito que sexo faz parte das cenas das TVs brasileiras, já que sexo faz parte da vida. Se tem ciúme, infidelidade, abuso, violência, amor, corrupção, ostentação, dilemas existenciais, familiares e sociais de toda a ordem, não haveria de ser diferente com a sexualidade.

Acho interessante questionarmos o que é da ordem do público e da ordem do privado, e com qual objetivo esses limites poderiam ser traçados, se é que devem. Mas a discussão não pode ser superficial. Porque, para mim, não há diferença entre a clássica “banheira do Gugu” ou as zilhões de propagandas de cerveja que mostravam os corpos seminus de mulheres, ambos veiculados em plena luz do dia e a masturbação de Rebeca. Foi só a lógica que mudou.

 

Leia também no Portal UOL Universa: https://www.uol.com.br/universa/colunas/ana-canosa/2021/11/27/andrea-beltrao-cena-de-masturbacao-novela.htm

Imagem: UOL Universa – Reprodução/TV Globo

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