As táticas que as mulheres adotam para não usar camisinha durante o sexo – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Tenho 54 anos e passei boa parte da minha adolescência e juventude nas décadas de 80 e 90, assistindo à morte lenta e dolorosa, em decorrência da AIDS, dos meus astros favoritos da música, como Cazuza e Freddie Mercury. Na época a situação foi devastadora, e ajudou a impulsionar a educação sexual no cenário escolar: ainda baseada em uma visão higienista, com foco na prevenção e na “correção” dos “grupos de risco”, voltada para o uso do preservativo, mas certamente um avanço.

Aos poucos outras discussões vieram à tona, como a homofobia, a transfobia, a misoginia, o sexismo, a sexualidade feminina, o prazer. A minha geração foi aos poucos usufruindo de maior liberdade sexual com a camisinha na carteira ou na bolsa e aprendemos a “chupar bala com papel”— era isso ou estar suscetível.

Dados recentes do IBGE apontam para uma preocupação: entre 2009 e 2019, caiu de 72,5% para 59% o percentual de adolescentes entre 13 e 15 anos que usaram preservativo na última relação sexual. Em contrapartida, houve aumento expressivo de Infecções Sexualmente Transmissíveis entre adolescentes e jovens.

Embora algumas ISTs possam, inclusive, levar a problemas de fertilidade ou ao desenvolvimento de doenças graves, como o câncer, o “pensamento mágico” —”Isso não vai acontecer comigo”— ainda está muito presente e segue ao longo da vida: segundo dados de 2020 da Sociedade Brasileira de Urologia, 80% dos homens acreditavam estar “fora de perigo” e, por isso, não usavam preservativo em suas relações sexuais.

A maior parte das pesquisas sobre a resistência no uso do preservativo se concentra em revelar as táticas que homens heterossexuais usam para convencer suas parceiras a abrir mão, sendo a “sedução” —deixá-la tão excitada a ponto de ela não querer usar a camisinha— e a “garantia de nível de risco” —tranquilizá-la dizendo que está são, sendo a proteção desnecessária— as mais utilizadas.

Mas as mulheres também têm resistência ao uso do preservativo. Um estudo publicado no “Journal of Sex Research” sugere que um número surpreendentemente grande de mulheres usa as mesmas táticas que os homens.

Os pesquisadores entrevistaram 235 mulheres heterossexuais sexualmente ativas —em sua maioria estudantes universitárias— sobre o uso de 10 táticas diferentes, desde que tinham 14 anos de idade, em relações sexuais cujos homens desejavam usar a camisinha. Quase metade da amostra admitiu ter usado ao menos uma das táticas apontadas no estudo, sendo “garantia de nível de risco” (37,9%) e a “sedução” (33,2%) as mais corriqueiras.

Das entrevistadas, 18,3% fizeram pedido direto para não usar; 17% alegaram sensibilidade reduzida; e 13,2% defenderam confiança no relacionamento como prerrogativa para abolir o preservativo na relação sexual. Enquanto isso, 15,3% intimidaram com reações emocionais negativas (ficando “bravas” caso o parceiro insistisse); 5,5% enganaram (fingindo ter feito exames, sem ter feito); 3,4% ameaçaram recusar fazer sexo; 3% chegaram a sabotar (removendo o preservativo durante o sexo), e 2,6% impediram o parceiro de colocar o preservativo.

Os pesquisadores também investigaram a frequência e a quantidade de consumo de álcool e histórico de diagnóstico de ISTs —que foram positivamente associados a um maior número e variedade de táticas utilizadas pelas jovens. Ou seja, mulheres mais vulneráveis a ISTs parecem ser as mais propensas a negociar sexo desprotegido com essas estratégias.

É frequente, nas relações heterossexuais, que diante da resistência masculina as mulheres tenham dificuldade de negar o sexo desprotegido, pois reproduzem uma conduta de submissão sexual, ou mantêm crenças sobre amor romântico e convicções sobre fidelidade no matrimônio que as colocam totalmente vulneráveis.

No entanto, no caso desse estudo, os parceiros desejavam o uso da camisinha —o que não foi suficiente para a adoção da prevenção.

É preciso investigar se a motivação autônoma feminina para o sexo desprotegido tem relação com o prazer sexual (preservativo como “interferência no prazer”), se é uma necessidade de manutenção do ideal romântico e da fidelidade como “prova de amor” ou se algumas mulheres acabam se sentindo “ofendidas” pelo parceiro, como se ele estivesse dizendo que ela não é “confiável”.

Outro fator importante é que essas jovens não viveram a pandemia de AIDS do final do século 20 e muitas, a depender do seu contexto sociocultural, nem sequer conhecem as ISTs a que estão vulneráveis.

Ações de prevenção em saúde sexual precisam levar em conta que mudanças de conduta no comportamento sexual podem demorar e é preciso insistir na informação aliada à reflexão sobre antigos padrões ainda tão enraizados.

 

 

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Imagem: Uol Universa – iStock

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