Ana Canosa – Colaboração para Universa
Helena tem 42 anos, é casada há 10 anos e não tem filhos. A relação com o parceiro começou com paixão, de ambos os lados, mas a vida em comum minou o erotismo e o marido, em algum momento passou a não querer fazer mais sexo com ela. Ela vê filme na sala e ele vê futebol no quarto. Na hora de dormir, ele dorme num colchonete do lado da cama abraçado com dois cães. Ela se sente um “lixo”, com a autoestima em frangalhos.
Nunca escutei seu parceiro, mas provavelmente de sua parte, ouviria reclamações: que ela é pouco assertiva, pouco criativa, submissa demais. Helena é uma mulher sensível, com grande dificuldade de se expor, e claro que, antes de conhecer Carlos, já havia se colocado no mundo a serviço dos demais.
Nas relações amorosas, a complementariedade psicológica das parcerias pode ser motor de fortalecimento, quando cada um aproveita e aprende com o perfil diferente da outra pessoa. Sonhadores podem aprender a ser mais pragmáticos e vice-versa, por exemplo, desde que cada perfil seja legitimado. É só através do amor, e não do julgamento e da crítica, que as diferenças podem ser incorporadas com sucesso.
Mas infelizmente, não foi esse o caminho que eles seguiram. A constante insatisfação pelo modo de ser da parceria os fez perder a admiração mútua e os afastou sobremaneira. Uma relação desértica, onde a insegurança individual os acorrenta na manutenção da instituição casamento.
A distância do mundo ao redor, proporcionado pelo trabalho, lazer e família, pôs lente de aumento na solidão a dois. A pandemia escancarou toda a falta de intimidade do casal. Para mobilizar alguma energia, em busca de si mesma, Helena começou a fazer uma dietinha na pandemia. Emagreceu. Se sentiu mais gostosa. Descobriu que existem fotógrafos que fazem fotos pelo celular da pessoa mesmo. À distância eles dirigem a(o) modelo(a) para depois tratar as fotos e finalizar o ensaio. Fez contato.
Ela e o fotógrafo começaram a trocar mensagens sobre como ele trabalhava e como ela gostaria que as fotos fossem. Fizeram alguns pequenos ensaios, via celular. Ele elogiando. Ela se sentindo bonita. Um clima de sedução online fez Helena se sentir viva e desejada.
As primeiras fotos que ele fez, foram com Helena vestida. Depois ela mesma pensou em fazer fotos mais sensuais. O fotógrafo continuou elogiando, dizendo que ela era linda, que ela era gostosa, etc. Ela decidiu fazer um ensaio nua. Ele topou. Tudo aconteceu dentro de casa, enquanto o marido de Helena cuidava de seus próprios prazeres.
Helena gostou das fotos e passou a se masturbar pensando no fotógrafo. Até que um dia, resolveu se arriscar e contar isso para ele. Ele disse que também estava pensado nela eroticamente. Começaram a fazer sexo virtual.
Ela marcou uma sessão de fotos de verdade com ele, dessa vez no estúdio. Tirou a roupa, fez fotos e transou lindamente no chão, na cadeira, no sofá (“me senti a Rose de ‘Titanic'”) do estúdio de fotografias com os “todos holofotes ligados” – “Me senti gente, me senti desejada, me senti bonita. Agora não sei mais o que faço da minha vida”.
Ser dona integralmente do próprio desejo, tende a ser assustador para muitas pessoas. Não é uma questão tão somente em ser monogâmico ou não, mas em depositar na parceria todas as responsabilidades sobre a sua satisfação pessoal e sexual. Isso não é justo com o parceiro e isenta Helena em lançar luz às suas necessidades, desejos, dilemas e características pessoais.
Conheço inúmeras pessoas que “usam” a parceria para controlar os próprios anseios. Manter-se no limbo, colocando a responsabilidade em Carlos, é de longe o caminho mais fácil.
Embora seja uma pessoa significativamente importante nessa história, o fotógrafo nada mais fez que lançar luz (“holofotes”) e revelar o olhar do outro para a autoimagem dela, uma nova versão que está tentando reforçar sobre si mesma: “Ei mundo, olha aqui eu sou gente, eu estou viva, eu gosto de sexo, eu sei transar, eu sou bonita”.
Parece tão óbvio que Helena e Carlos deveriam por fim nesse casamento, e quem sabe construírem juntos uma nova relação; ou mesmo lançarem-se ao mundo, em busca de novos olhares. Mas há quem demore muito mais tempo a ajustar as próprias lentes a fim de narrar a história em primeira pessoa, porque usa a relação para justificar sofrimentos e sustentar a ilusão de uma “segurança” emocional: ao menos ele(a) está comigo. Está?
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