Insatisfação com genital é fator de risco para disfunções em mulheres – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Um estudo brasileiro de revisão integrativa recém-publicado na revista brasileira de sexualidade humana sugere que a Autoimagem Genital Negativa (AIGN) é fator de risco para disfunções sexuais em mulheres e que as mais jovens com pouca ou nenhuma atividade sexual e que referem insatisfação com o próprio corpo são as mais afetadas na sua satisfação sexual.

Uma das pesquisas que entraram na revisão, por exemplo, concluiu que insatisfação genital se correlaciona negativamente com a frequência genital e que mulheres com AIGN foram menos propensas a se envolverem em sexo genital receptivo.

Entende-se por autoimagem genital negativa a percepção da pessoa sobre seus órgãos genitais e os sentimentos daí gerados, que podem ser positivos ou negativos, extraídos através de perguntas sobre o quanto a mulher se sente bem em relação aos genitais e se sente “vergonha” ou “orgulho” deles, confortável em deixar que a parceria olhe para seus genitais e de estar diante de um profissional de saúde para examiná-los.

Respostas sobre odor (acho que meus genitais cheiram bem) e “função genital” (acho que meus genitais funcionam como deveriam funcionar) também interferem na autoimagem genital.

 

Brasil é líder em cirurgia íntima
Já é sabido que o Brasil é um dos líderes no ranking mundial de procedimentos cirúrgicos de estética íntima, sendo a flacidez cutânea, o tamanho e o formato dos lábios vaginais os que causam maior descontentamento.

O curioso é constatar que a vulva, assim como o nariz, tem aspecto particular em cada pessoa e que, portanto, não existe naturalmente um modelo genital que possa ser considerado pela ciência como “perfeito”, mais ou menos bonito. Interessa a funcionalidade do órgão, ou seja, como ele responde e processa os estímulos sexuais, interesse/excitação sexual e orgasmo.

Mas sim, se a percepção emocional negativa sobre a vulva influencia na capacidade de entrega para a experiência sexual, alguns procedimentos estéticos podem beneficiar quem apresenta AIGN. O problema a meu ver está na pouca liberdade que as pessoas com vulva têm, ainda mais sendo jovens, para avaliarem a sua genitália positivamente, diante de padrões genitais exibidos constantemente nos filmes pornográficos, com vulvas claras e de lábios simétricos. 

Nesse sentido, a insegurança natural diante da avaliação do corpo e da performance sexual que, todos(as) apresentamos diante da parceria encontra uma parte da anatomia para representá-la.

“Então, não é a minha insegurança emocional em agradar, ser aceita e ‘bem avaliada’ pela outra pessoa que eu tenho de enfrentar, mas a cor dos meus lábios vaginais.”

Esse fenômeno é ainda mais forte em pessoas jovens, que estão afirmando a sua identidade. Nesse sentido, é bem possível que uma intervenção cirúrgica funcione mais como uma espécie de maquiagem temporária e que outras partes do corpo sejam eleitas adiante para representar o conflito.

Se pensarmos que o corpo das mulheres enfrenta restrições na expressão da sua sexualidade, seja como “objeto” desejante e desejado e que padrões estéticos e de comportamento foram majoritariamente definidos por homens (os que davam as cartas nos segmentos religiosos, na medicina, na política, e na indústria pornográfica), não é de se espantar que a distorção de autoimagem genital de pessoas com vulva seja enorme, o que certamente tem efeitos negativos na vivência saudável do sexo.

 

Diversidade genital
Cabe perguntarmos também a quem interessa problematizar o aspecto da genitália feminina, para engrossar a “oferta massiva de produtos e serviços estéticos, cosméticos e de beleza em busca do corpo perfeito”.

Felizmente, há um importante movimento social em prol da liberdade do corpo feminino, com a finalidade de revelar também a diversidade genital. O grande Mural da Vagina, com 400 modelos diferentes de vulvas esculpidos em gesso, tirados diretamente de mulheres voluntárias, exposto pela primeira vez em 2011, inspirou uma série de pessoas, de artistas a profissionais de saúde, a abordarem o tema a fim de naturalizar a diversidade genital.

No Instagram há diversos perfis que se dedicam ao assunto, como o @vulvacasting, @thisisavulva, @the.vulva.gallery, @vulvarias.

 

 

 

 

 

Leia também no Portal UOL Universa: https://www.uol.com.br/universa/colunas/ana-canosa/2022/01/18/autoimagem-genital-negativa-e-fator-de-risco-para-disturbios-em-mulheres.htm

Imagem: UOL Universa – Doucefleur/ iStock

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