‘Ele não é bom no sexo oral, tenho pouco orgasmo e curto mais o vibrador’ – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Marta tem 32 anos, é bissexual e está em um relacionamento com um homem. Em janeiro, recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla, uma doença autoimune que não tem cura e afeta o sistema nervoso central. Como a comunicação entre cérebro e corpo fica comprometida, a depender dos nervos afetados, os sintomas variam: fadiga, distúrbios visuais, fraqueza muscular, alterações sensoriais, dificuldades de fala, alterações cognitivas, entre outras. Disfunções sexuais também são comuns, como perda de libido e alterações significativas na fase da excitação, podendo inibir a capacidade de ter orgasmos. Muitas pessoas podem conviver com a doença por anos, pois medicamentos ajudam a diminuir a atividade inflamatória e os surtos. Marta leva vida normal, conseguiu tratamento pelo SUS e a doença está estabilizada.

Embora não tenhamos controle de quase nada, menos ainda de se estaremos vivos amanhã, quando alguém recebe um diagnóstico dessa natureza, a vida passa a ter uma urgência diferente. Marta não é uma mulher com desejo sexual intenso, à exceção de quando está no período fértil e, segundo ela, ‘sobe pelas paredes’. A insatisfação se apresenta, principalmente nessa fase do ciclo, porque ela não tem satisfação sexual com o parceiro.

Parece que há falta de química desde o início da relação, mas como saíam muito para beber, o sexo fluía melhor. Além do parceiro ter pouca iniciativa para transar, Marta reclama também que dificilmente tem orgasmos, exceto quando se masturba na penetração, e que não tem prazer durante o sexo oral, que ele ‘não é bom nisso’. Acaba curtindo mais seus momentos com o vibrador.

Questiono se Marta espera ter um orgasmo durante a penetração, que não seja estimulando o clitóris concomitantemente — uma expectativa que, bem possível, não se concretizará com ele ou outra pessoa, devido às poucas terminações nervosas do canal vaginal. Então sugiro que ela use o vibrador na relação sexual com ele: terá orgasmos interessantes e isso favorecerá uma melhora na sua resposta sexual.

Mas isso provavelmente não resolverá o seu dilema principal. Marta sente que o amor deles já é mais fraterno do que erótico e a questão é que ela valoriza o parceiro, por ser companheiro e apostar no projeto deles. E se lá na frente ela não encontre ninguém que aceite viver com a condição de saúde dela? Por outro lado, vai deixar de ter outras experiências sexuais pelos anos que lhe restam — que ela não sabe quantos serão?

Acolho com total compreensão a sua dúvida e afirmo que essa escolha é mesmo difícil. No entanto, sugiro que avalie a sua satisfação na relação, o quanto ama e se sente amada, o quanto se divertem juntos, compartilham ideias e emoções, cuidam um do outro. Embora Marta tenha medo do futuro, guardar o parceiro como ‘poupança afetiva’ não a fará feliz. Reforço que também não há como assegurar que ele não decidirá pelo fim da relação no futuro, por múltiplas razões, não só pelo possível agravo da doença dela. Nem que ela encontrará satisfação sexual e afetiva em outras relações.

Me parece que esse conflito já existia antes e o diagnóstico só serviu como gatilho para encontrar uma solução. O trabalho a ser feito é entender o quanto sexo é prioridade para ela e se a renúncia da relação amorosa precisa necessariamente ser feita. A relação não monogâmica pode ser uma solução viável, tanto para ela, quanto para ele, tanto hoje, quando é ela que está com a urgência desejante, quanto amanhã, quando ele pode se frustrar, caso ela fique impossibilitada de transar.

 

Sexo oral: guia prático

 

 

 

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Ela finge orgasmo para o marido há 16 anos. Como parar de mentir?

 

Imagem: Uol Universa – IPGGutenbergUKLtd/Getty Images/iStockphoto

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