Ana Canosa – Colaboração para Universa
O amor é plural. Demanda criatividade, vontade. É um sentimento que pode se multiplicar, mudar, fenecer. Ele se confunde, ele transborda, ele se desvia e vira saudade. Aprendemos a viver o amor com tesão, nas relações de compromisso buscando alguém com que a gente possa contar uma história que dure, mais do que um curta-metragem.
É uma idealização que conforta e ilude egos cansados, mas que se desconstrói ao longo do tempo. Sabemos que nada dura para sempre, até o casal monogâmico comemorando bodas de ouro já teve muitas versões.
Já vi amores que sucumbiram às disputas de ego. Pois o amor precisa de empatia e generosidade e algumas pessoas simplesmente não conseguem manter seus humores sob controle, são irascíveis. Sejam os possessivos, os agressivos, os tremendamente pessimistas, os maníacos, os carentes; e não é exatamente o fato de ser assim, mas de não buscar ajuda para evitar sobrecarregar o outro e contaminar uma relação.
Há também aqueles que têm dificuldade em dividir seu espaço, ou os que não conseguem abrir mão de opiniões e posições. O fato é que a convivência põe em xeque a flexibilidade das pessoas para adaptar seus hábitos e costumes, dando espaço para o outro; nesses casos o amor vai sendo minado, devagar e vira um amor soterrado.
Também é comum observar quando o amor ficou só uma ideia, repetida verbalmente de vez em quando com um “eu te amo”, mas que é sentido como vazio. Porque o amor precisa ser convertido em ação, já que meros mortais, para conviver, necessitam de reciprocidade. Infelizmente as pessoas esquecem de investir na relação; pensam que só a intimidade construída basta e pecam por não manifestar seu afeto como o outro gosta e não como ele próprio concebe.
Claro, às vezes um está mais focado no trabalho, noutras vezes o outro anda fechado em seus próprios devaneios. É preciso comunicação para entender quando alguém não consegue doar-se e quando vale a pena acolher essa ausência, com paciência, por ser transitória. Hoje é o outro, amanhã o descuidado pode ser você. O problema reside quando o outro, por mais avisado que tenha sido, não se mexe e está sempre em constante falta de ação. O amor cansa.
Mas o amor erótico também muda. Alguns casais mantêm-se ligados pelo erotismo durante muito tempo, normalmente aqueles que começaram a relação muito atraídos um pelo outro, que tem química e que privilegiam o sexo. Fazem dele às vezes uma brincadeira gostosa, noutras um momento de profunda conexão afetiva; colocam o sexo como prioridade.
Podem passar algum tempo com menos atividade, mas tem facilidade em resgatar. Já outras pessoas perdem totalmente o desejo sexual pelo parceiro. E é duro abandonar a vida sexual, caso sejam monogâmicos, quando se gosta de fazer sexo. O amor pode se transformar em fraterno e talvez, para muitos, essa seja uma falta difícil de sustentar.
Como somos todos únicos, e cada vivência leva em conta a idade, a situação emocional, socioeconômica e física, não dá para descrever a trajetória do amor à caneta. É preciso rabiscar a lápis, pois que se apaga, se risca e se complementa muita coisa.
Há quem conte muitos amores na vida, todos diferentes, há quem reforce um único, o maior de todos, há quem ame sua comunidade. No fundo, é a disposição de amar que conta e a possibilidade de se reinventar. Pois até para se despedir de um amor, você precisa também se despedir de quem você foi.
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