Cadê os parças do Robinho? Homens se protegem até na violência – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

O caso do ex-jogador Robinho levantou milhares de questionamentos na internet durante as últimas semanas. Uma das perguntas que apareceu com frequência indaga o que faz um homem apoiar e participar de um ato grave como estupro coletivo mesmo que tenha, em alguma parte de sua consciência, noção do equívoco e da crueldade cometida.

Para entrar no debate não é preciso ir longe, podemos diminuir a escala e refletir: o que faz um homem aceitar, em silêncio, vídeos recebidos nos seus grupos de Whatsapp que propagam a violência, o machismo, o sexismo, o racismo, mesmo que incomodem? Por que não dão um toque no amigo dizendo que aquela atitude reforça padrões de violência?

O que faz um homem testemunhar a infidelidade do amigo, sendo também amigo da parceira dele, e ser coadjuvante nessa empreitada?

Homens dificilmente se retiram, como se a força do grupo o impulsionasse a participar. Aquele que se arrisca a dizer não, desde a adolescência, será certamente ridicularizado, acusado de falta de coragem, mimimi. É desde cedo que se cria o ‘pacto narcísico da masculinidade’, um conceito que funciona para manter seguro o lugar dos homens na sociedade. Para se manter no grupo, os homens silenciam, não se posicionam contra ideias e ações da maioria, contestar é ser um ‘não homem’.

A socióloga Raewyn Connell, em uma de suas concepções sobre política das masculinidades, diz que os sujeitos masculinos não são todos iguais. Na sociedade patriarcal e machista, os homens têm privilégios, mas nem todos conseguem aproveitá-los, atravessados principalmente pela raça, orientação sexual e condição socioeconômica, o que promove um tipo de hierarquização na experiência da masculinidade hegemônica.

No topo da cadeia estão, é claro, aqueles que se sentem dentro do que a autora chama de ‘masculinidade hegemônica’, que responde diretamente ao princípio do patriarcado, dentro do qual as mulheres são subordinadas aos homens e eles acreditam que são superiores também a outros homens, que não possuem as mesmas características dele.

No segundo lugar da cadeia está ‘o cúmplice’, em nossa língua, o “parça”, o “mano”, aquele que não consegue corresponder a todos os atributos da masculinidade hegemônica. Não necessariamente ele é poderoso, tem dinheiro, mas ele está ao lado daquele que tem, o que lhe garante alguns privilégios.

Logo abaixo está a masculinidade marginalizada, que contempla os que não conseguem galgar o topo da cadeia pelas questões que – já citamos – de raça, etnia, classe social, mas que tem valores interiorizados e almejam a primeira posição. Normalmente, essa terceira categoria trabalha para as duas primeiras, valorizando suas posições.

Por fim, vem a ‘masculinidade subordinada’, composta pelos homens que, na leitura da masculinidade hegemônica, os aproximam dos que eles mais temem: ‘flertar com o feminino”, pois esse feminino é sujeito do grupo subordinado. Aqui estão os gays e trans, constantemente comparados às mulheres, entendidas como subalternas.

É claro que nem todos os homens são iguais, e que mulheres também podem agir da mesma forma, mas há uma diferença estruturante na educação baseada no gênero: as mulheres são educadas para cuidar, empatizar com as necessidades alheias, tomar cuidado com o que fazem e dizem. São mais capazes de dizer não quando veem a violência praticada contra vulneráveis. Enquanto isso, os homens são criados para manter o poder do bando.

Sobre o caso do jogador Robinho, que foi condenado e está preso, sei debater sobre o que costuma levar ao estupro coletivo, mas me restaram outras perguntas: e os outros 4 envolvidos? Os “parças”? Na época das investigações deixaram a Itália e não conseguiram ser notificados. Se ‘safaram’, por enquanto, como manda o bom código da masculinidade hegemônica e sem ajudar a combater esse fenômeno doente e cruel.

 

 

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Imagem: Uol Universa – Reprodução

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