A “prateleira do amor”, metáfora desenvolvida pela psicóloga Valeska Zanello, nos ajuda a compreender como as desigualdades de gênero atravessam a forma como homens e mulheres aprendem a viver o amor.
Segundo a autora, mulheres são socializadas para entender o vínculo amoroso – e a maternidade – como um marcador central de identidade. Em outras palavras, ser escolhida, ser desejada e conseguir manter uma relação frequentemente são apresentados como indicadores de sucesso feminino. Já os homens, em nossa cultura, costumam ser incentivados a construir sua identidade a partir da autonomia, do trabalho, do desempenho e da conquista, enquanto a vida amorosa ocupa um lugar diferente em sua trajetória.
A metáfora da prateleira propõe imaginar as mulheres expostas como produtos, organizadas segundo critérios estéticos e sociais valorizados pela cultura. Juventude, magreza, branquitude e determinados padrões de beleza funcionam como mecanismos que definem quem ocupa os lugares mais visíveis dessa prateleira. Quanto mais distante desses ideais, maior tende a ser a vulnerabilidade ao preterimento afetivo e à objetificação.
Mas o conceito vai além da aparência. O principal é que homens são culturalmente colocados na posição de quem escolhe, enquanto muitas mulheres aprendem que precisam ser escolhidas. Essa assimetria altera profundamente a dinâmica das relações, favorecendo a tolerância a relações insatisfatórias, o medo da rejeição, a dificuldade de romper vínculos e um investimento desproporcional na manutenção da parceria por parte das mulheres.
Isso não significa que toda mulher viva essa experiência da mesma forma, nem que todo homem ocupe sempre a mesma posição. É justamente por isso que a metáfora da prateleira precisa ser lida à luz da interseccionalidade. Raça, classe, orientação sexual, deficiência, idade e outros marcadores sociais atravessam essa dinâmica e fazem com que mulheres ocupem lugares muito diferentes nessa “prateleira”, produzindo experiências distintas de reconhecimento, exclusão, desejo e vulnerabilidade. Mas há também outras ‘prateleiras’, em termos culturais.
Compreender essa metáfora funciona para enxergar os roteiros culturais que moldam nossos desejos, expectativas e escolhas. Afinal, relações mais saudáveis começam quando deixamos de medir nosso valor pela necessidade de sermos escolhidos/as e passamos a construir vínculos baseados em reciprocidade, autonomia e reconhecimento mútuo.
Vale ressaltar que desvelar uma estrutura não significa que todas as mulheres façam parte dela e da mesma maneira. Mulheres também escolhem, recusam, negociam, criam estratégias e transformam as relações. Ou seja, o conceito descreve uma assimetria cultural, mas não deveria apagar a capacidade de ação das mulheres.
Como toda metáfora, a prateleira do amor também tem seus limites. Ela não dá conta da diversidade das experiências afetivas nem substitui uma análise interseccional das relações de gênero, raça, classe, sexualidade e deficiência. Ainda assim, continuo considerando essa uma ferramenta potente. Sua força está justamente na capacidade de traduzir, em uma imagem simples, mecanismos culturais complexos que muitas vezes permanecem invisíveis. Não porque explique tudo, mas porque nos ajuda a enxergar algo importante. Boas metáforas não encerram uma discussão.
Fontes: https://www.sescsp.org.br/editorial/valeska-zanello-entre-o-silencio-e-a-cumplicidade/










