Ainda vale a pena se casar? – Mina Bem Estar

Reflexão por que muita gente ainda escolhe o casamento em tempos de individualismo.

Por: Ana Canosa

Rita e Marcelo estão juntos há vinte e oito anos e falam orgulhosos sobre a história compartilhada. Destacam a superação das crises, o aprendizado sobre as necessidades de cada um, o companheirismo, as transformações que viveram juntos. Alegram-se com os filhos, mas também cultivam o prazer de estar a dois: saem para passear, viajam, fazem sexo. Cada um mantém sua autonomia no trabalho e nas amizades, cuidam do corpo e da mente. Compartilhar a vida é um valor em comum. Me alegro sempre que os escuto, porque me parecem essencialmente felizes com sua união.

“Será que não estamos criando justificativas bem elaboradas para permanecermos sozinhos?”

Mas o mundo anda meio cético com o casamento. Multiplicam-se os discursos sobre o quanto a vida a dois pode ser difícil. Os “casais de fim de semana”, por exemplo, que preferem manter casas separadas para não atrapalhar a rotina ou o trabalho; ou as manchetes que alertam para os “prejuízos da conchinha”, como se dormir junto fosse um risco à saúde. Será que não estamos olhando apenas para o lado incômodo da convivência? Ou criando justificativas bem elaboradas para permanecermos sozinhos?

O amor-próprio virou um mantra contemporâneo — com razão, já que ninguém deveria se anular numa relação. Mas quando o “eu” ocupa todo o espaço, o “nós” fica sem lugar. Amar exige disposição para dividir, negociar e sustentar um vínculo ao longo do tempo, mesmo com imperfeições. É um exercício diário de presença, generosidade e renovação.

Nos casais heterossexuais, ainda persistem medos antigos: o de ter que “cuidar do outro como um filho”, o da traição, da sobrecarga, o de carregar o casamento nas costas. São receios compreensíveis, mas que nem sempre correspondem à realidade. Existem relações mais simétricas, parcerias que amadurecem e aprendem a se reconstruir.

O problema é que, enquanto acumulamos argumentos contra o casamento, pouco discutimos como modernizá-lo. E por mais que a solteirice seja alardeada com orgulho, esse estado também traz contradições. Se conversar diariamente e intimamente com chatbots (uma prática que cresce exponencialmente) não for a maior delas, não sei o que seria.

A antropologia mostra que há histórias de amor em diversas culturas, mesmo nas mais antigas. O casamento surgiu como um arranjo de sobrevivência: garantir a manutenção da prole, dividir tarefas e proteger o grupo. Mas se hoje já não dependemos disso — se a reprodução e a subsistência deixaram de ser centrais —, o que sustenta a ideia de casar?

A terapeuta Esther Perel diz que exigimos do casamento o que antes buscávamos em uma aldeia inteira: segurança, cumplicidade, aventura, erotismo, amizade e sentido de vida, tudo condensado em uma única pessoa. É natural que essa sobrecarga gere frustrações. Mas, para quem deixou a idealização de lado, ainda vale a pena?

Talvez a resposta esteja no prazer de termos uma testemunha da nossa existência, bem de pertinho. Alguém que nos espelhe termos sido aceitos. Algo como: “eu vejo você na sua inteireza e — apesar disso — quero construir uma história junto.”

O casamento de hoje se ancora na busca pela felicidade individual, o que o torna mais frágil, mas talvez também mais honesto. Entre negociações, acordos e reconfigurações (casais que moram separados, dormem em quartos diferentes ou revisam a monogamia), o desejo de compartilhar a vida ainda resiste.

A filósofa Elizabeth Brake lembra que o casamento é apenas uma das muitas formas de vínculo possível e que não deveria ter o monopólio do reconhecimento nem dos direitos. Ela fala em amizades cuidadoras: laços de afeto e compromisso que sustentam vidas tanto quanto qualquer aliança no dedo. Se a amizade pode ser um pacto de amor, o contrato do matrimônio pareceria dispensável. 

“Talvez o casamento continue sendo um modo de dizer “somos nós” num mundo de individualismos”

Mas então, por que ainda casar? Por que tantas pessoas (inclusive aquelas de orientações sexuais diversas) escolhem oficializar um vínculo que poderia existir sem papel passado e sem erotismo? O que separa, de fato, esse amor da amizade? Talvez não seja o tipo de sentimento, mas o lugar simbólico que o casamento ainda ocupa: o pertencimento, o abrigo, a sensação de estar “em par”.

Talvez o casamento continue sendo um idioma afetivo que ainda compreendemos — um modo de dizer “somos nós” num mundo de individualismos. O laço conjugal pode se apoiar mais na conveniência de estar junto, na cumplicidade cotidiana, na função emocional que a outra pessoa exerce sobre nossa vida psíquica capenga, ou no simples desejo de ser reconhecido como parte de um “nós”, do que no amor erótico propriamente dito.

Se amigos se casam porque a vida fica mais fácil e mais viva ao lado de alguém de extremo bem-querer, ou se o fazem porque o registro social do casamento ainda confere um certo brilho de pertencimento, é difícil saber. Talvez, para muitos, o amor precise menos de paixão e mais de um pacto de companhia. Talvez o casamento, afinal, sobreviva porque seguimos precisando de um lugar onde o “nós” ainda faça sentido.

Mas é preciso reconhecer que há pessoas mais talhadas para o casamento do que outras. Há quem floresça na convivência e há quem precise do silêncio da própria casa. Casar não é uma conquista universal: é uma escolha de estilo de vida — uma forma específica de estar no mundo. E tudo bem assim. O importante é que cada um encontre o tipo de relação afetiva que sustente a própria paz.

aRTIGOS rELACIONADOS

posts recentes

agenda

Livros

Livro Sexualidades e violências

A obra Sexualidades e Violências conclama todos à responsabilidade pela edificação de uma cultura que promova a equidade, a pluralidade, a diversidade, a justiça, a solidariedade, a cidadania, a liberdade, a responsabilidade e o bem comum.

Veja mais >

Livro Sexoterapia

Em Sexoterapia, Ana Canosa nos fascina com a descrição dos processos, em forma de crônicas, de 15 casos clínicos, todos envolvendo queixas sexuais, sejam as de identidade sexual, de orientação sexual, fantasias ou disfunções sexuais. É impossível não se identificar

Veja mais >

A Metade da Laranja?

Ana Canosa reúne neste livro crônicas sobre amor e sexo que trazem dicas para lidar melhor com os conflitos mais frequentes nas relações contemporâneas.

Veja mais >

categorias