A polêmica do Pornhub Classic Nudes e os limites entre o erótico e o pornô – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

O Pornhub – uma das maiores plataformas de acesso gratuito de filmes pornográficos – lançou o Pornhub Classic Nudes, uma espécie de “museu virtual” que abriga algumas pinturas famosas, expostas em museus internacionalmente reconhecidos como o Museé D’Órsay, em Paris, o Museo del Prado, em Madri, a National Gallery, em Londres ou o The MET, em Nova York.

Em cada obra, o público encontrará uma síntese com dados do artista e da pintura acrescida de uma série de trocadilhos sexuais. A intenção, me parece, é promover diversão e reforçar como a pornografia também está presente nas artes clássicas desde sempre. Ou como o sexo pode ser uma obra de arte.

Algumas obras como “A Origem do Mundo”, de Gustave Courber (1866), foram encenadas por atores pornôs em vídeos rápidos, que dão o tom pornográfico da cena (ou erótico?), hipotetizando o contexto que o artista experienciava ao retratar seus personagens nus. “O Homem Nu”, de Edgard Degas (1856), por exemplo, recebe um sexo oral de uma mulher, no melhor estilo: ao ser acordado. Ou “Adam and Eve”, de Jan Gossaert (1520), que se masturbaram mutuamente, antes de Adão experimentar o “gosto” da vagina de Eva, que, segundo os criadores do conteúdo de Classic Nudes do Pornhub, foi o que antecedeu a cena retratada na pintura.

Não é unânime a diferença entre erotismo e pornografia, nem quais elementos os caracterizam. A distinção é feita a partir de teorias que buscam compreender, cada qual, por uma ótica singular. Por exemplo, a distinção plástica refere que o erotismo é um conteúdo sexual velado, enquanto a pornografia, por sua vez, o explicita. Reduzir a fronteira a essa única perspectiva gera inquietações.

Para compreender, de fato, o que está em jogo, precisamos considerar a evolução dos costumes e da moral em cada contexto sociocultural: um beijo na boca já foi considerado pornográfico em outras épocas, e, pode perfeitamente, hoje em dia, passar quase desapercebido em boa parte do mundo. Desde a antiguidade, não só o nu, mas também a relação sexual, foram retratados por meio de desenhos em paredes, papiros, cerâmicas, além de esculturas e pinturas, muito provavelmente para registrar essa dimensão da vida, cultuar a fertilidade, a reprodução humana e o prazer; se tinha também a finalidade de excitar alguém, não dá para saber e, por isso, torna-se difícil classificá-la como erótica ou pornográfica.

Além disso, é importante ter presente a possível diferença atribuída aos termos no campo comercial: enquanto o erótico está a serviço da arte, o pornográfico está a serviço do consumo. Aliás, socialmente conferimos um “teor” mais nobre ao erotismo, em contraposição com o caráter dito “vulgar” da pornografia. Justamente por isso, não foram poucas as críticas ao Pornhub, principalmente devido à intenção de, na visão de muitos, querer aproximar a arte da pornografia.

Ainda mais uma pornografia que tem inimigos ferrenhos e enfrenta grandes problemas pelo modelo de negócio: por se tratar de uma plataforma de acesso gratuito, com vídeos de milhares de fontes diferentes, o Pornhub está sendo investigado e processado por permitir a divulgação (ou ao menos não conseguir barrá-la) de vídeos de pedofilia, ou outros nos quais há sabidamente envolvimento de escravidão sexual e violência contra mulheres e por não ter a devida permissão dos museus para uso das obras. Diante da iniciativa de Classic Nudes, ganhou mais processos, agora dos museus, já que não foram consultados para dar permissão necessária a utilização das obras. 

Em tom provocativo, o Pornhub divulga que o seu tour guiado é muito mais divertido do que os maçantes audio guides à disposição dos visitantes nos museus. Golpe baixo, claro, porque não há distinção possível a ser feita neste caso.

 

Leia também no Portal UOL Univesa: https://www.uol.com.br/universa/colunas/ana-canosa/2021/08/03/pornhub-erotismo-e-pornografia.htm

Imagem: UOL Universa – Getty Images

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