‘Saí com um emocionado, achei tudo estranho e descobri que ele era casado’ – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Camila conheceu um professor de teatro em uma festa. Os dois trocaram olhares, risadas, ideias, dançaram juntos, beberam e de lá foram para a casa dela. O sexo foi bom — ele, aquele homem do tipo afetivo, que faz elogios, se empenha para que ela tenha prazer, carinhoso no pós-sexo, na dormida de conchinha, no café da manhã e na despedida. Embora tenha sido uma experiência interessante, que poderia render uma segunda vez, Camila sabia que eles eram bem diferentes e não tinha muita expectativa

Mas o sujeito começou a enviar mensagens muito efusivas, dizendo que a noite tinha sido incrível, que ela era maravilhosa, que estava pensando nela, que queria ir ao teatro, cinema, programa completo. Saíram pela segunda vez, fizeram sexo e ele só faltou pedi-la em casamento. Camila achou muito estranho o entusiasmo do moço — sabe que é uma mulher interessante, mas algo dizia que havia certo exagero em tudo. Ponderou que talvez, quem sabe, fosse o jeito dele, esse pessoal das artes, muito intenso e entregue.

Claro que a enxurrada de carinho e elogios alimentou a autoestima dela, deu aquela lustrada no ego, ativou a euforia de quando estamos nos achando maravilhosas. Se pegou até esperando a mensagem do homem, vejam só.

Quando contava suas experiências para um grupo de amigas, uma delas pediu a foto do sujeito, pois achou o nome e a descrição da intimidade parecidos. Dito e feito: é o marido de Ana Maria! O homem, que disse que é separado e tem três filhos que moram com ele — Camila até tinha achado interessante, um cara que assume o cuidado dos rebentos —, na verdade tem uma esposa. Não deve cuidar de ninguém — me disse —, haja vista o tanto de tempo que gasta fazendo sexo e adulando mulheres pelo WhatsApp depois.

Camila descobriu que ele e Ana Maria têm uma relação aberta, ou seja, podem ficar com outras pessoas, mas que deveriam contar um para o outro quando isso acontecesse. Segundo a amiga em comum, Ana Maria não faz ideia da existência de Camila, nem de outras, menos ainda das interações românticas que ele propõe — a regra do proibido no contrato do casal. Sempre que pergunta para o marido sobre outras relações ele nega. Diz “você é meu único amor”, blá, blá, blá.

Para mim, já passou o tempo de discutir se o homem em questão é um narcisista, um dependente emocional das figuras femininas a lhe reforçarem uma importância de macho alfa, se gosta de sexo e variação, porque ele tem direito de fazer da vida o que bem entender. Cabe ressaltar dois aspectos para essas mulheres refletirem: dar voz à intuição, que não é uma experiência mística ou sobrenatural, e sim um tipo de déjà vu; e perceber que há infidelidade mesmo em relações abertas e que até quando se tenta fugir do tradicional, não necessariamente ele sai de dentro da gente. Não é fácil dar liberdade sexual e afetiva a parcerias por quem estamos envolvidos emocionalmente.

Temos dificuldade de reconhecer quando somos parte de uma narrativa clichê, que nubla a imagem de sermos evoluídas, terapeutizadas e desconstruídas. É a ordinariedade que habita em todos nós. Resistir é armar a própria armadilha.

 

 

 

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Imagem: Uol Universa – Thinkstock

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