Ana Canosa – Colaboração para Universa
Izabel tem 35 anos, uma mulher esguia, de gestos elegantes, divorciada de um casamento que durou dois anos. Quando pergunto sobre esse relacionamento, ela me diz que os dois trabalhavam muito e, portanto, não tiveram tempo para construir laços mais fortes. Faziam sexo uma vez a cada seis meses. Gostava das discussões intelectuais, compartilhavam ideias sobre o mundo, mas não os sentimentos próprios diante dos dilemas da vida, as necessidades afetivas e sexuais e pouco falavam sobre o destino da relação. Izabel é formada em ciência política, escreve sobre o tema e é professora universitária, com doutorado. Ela é considerada uma cabeça brilhante, admirada por muitos, uma sala de aula sempre lotada.
Aprendeu a seduzir usando a inteligência e a eloquência. Criada em um contexto religioso tradicional, não validou a sua corporeidade como fonte da atração sexual das pessoas, o que por um lado é ótimo, já que não se sente aprisionada a corresponder algum tipo de beleza física, mas por outro também teve dificuldade de erotizar esse corpo e cuidar dele. Chega a ser negligente com necessidades básicas, pois com frequência se esquece de comer. Massagens, banhos de imersão, óleos, hidratantes, máscaras — nada disso faz parte do seu repertório de cuidados e pequenos deleites. Gosta de sexo, mas facilmente esquece esse prazer, preenchida que está pelo gozo intelectual. Masturbação vez ou outra, em período fértil e só quando tem tempo, pois muitas vezes dorme antes.
Izabel se apaixonou pelo professor de geopolítica, 42 anos, gato e brilhante como ela — o que abriu seu apetite sexual, com o siricutico que dá nas mulheres em torno dos 30 anos. Um misto de hormônio, autonomia, potência e crença na vida e sexo passa a ser uma atividade que legitima tudo isso. Mas, como ficou anos sem fazer sexo com ninguém, nem consigo mesma, enrolou o rapaz com mil desculpas para não transar, enquanto buscava coragem e ferramentas. Afinal, deixar o corpo ir é, uma linguagem que ela simplesmente desconhece.
Desejava se tornar em uma espécie de deusa do prazer antes da primeira vez, com receio que ele, mais experiente, a achasse pueril. Investiu nos seus recursos eróticos e nas suas habilidades sexuais.
Izabel fez exercícios de autoconhecimento, entrou em aulas de dança, passou a prestar atenção nas sensações corporais. Comprou roupas novas, mais coloridas e sexy, lingeries e sex toys. Criou uma playlist sensual, viu filmes, ouviu podcasts de contos eróticos, aprendeu técnicas de masturbação peniana, tudo com uma avidez impressionante. Foi bonito acompanhar aquela mulher desabrochando para o sexo e se insinuando ao namorado, o corpo pegando fogo.
Eis que no dia marcado para finalmente esse encontro sexual acontecer, sem reservas, o namorado, todo sem jeito — e antes que ela continuasse a baixar-lhe o zíper da calça — pediu para que ela se sentasse na cama. Pegou nas suas mãos e, olhando em seus olhos, balbuciou que era virgem. Sim, meus caros, aquele corpinho interessante nunca tinha adentrado outros corpos, ele era tímido e inseguro. Atônita, mas ao mesmo tempo mais leve, sem saber se ria ou chorava, foi deixando um sentimento terno lhe invadir a alma. Enfim estavam diante de si mesmos, olhando para o outro. Em vez de aproveitar a oportunidade para performar sexualmente e aplicar todo o seu conhecimento, admitiu a pouca experiência. Abraçados, desvirginaram-se calmamente, uma conexão nunca antes vista, provando para o mundo que nem sempre são os opostos que se atraem.
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