Lembrança de cena grotesca me deu nojo de cocô e pavor de sexo anal – UOL Universa

Ana Canosa – Colaboração para Universa

Um leitor me escreve um e-mail contando sobre a sua aversão ao sexo anal. Pois é, ele me explica que, atualmente, nota uma hipervalorização da prática, como se todos os homens cis heterossexuais fossem aficionados pela “porta dos fundos” e que nós, comunicadores, estamos esquecendo daqueles que não fazem a menor questão.

Além disso, ele reforça que não é por preconceito, mas é que simplesmente não simpatiza com a ideia de excrementos participarem da relação sexual, seja pelo odor ou pelos restos de fezes nos lençóis ou nos genitais, que sabemos, é um risco que a prática oferece. Sim, é verdade que é possível minimizar as probabilidades de erro, como fazer uma limpeza correta a base de ‘chuca’, ingerir comidas leves, mas não há garantias nesse campo, não é mesmo?

Durante o texto, o leitor descreveu uma cena “grotesca e nojenta” que o chocou durante a infância. Preparados?

Um dia, quando ele tinha cerca de sete anos, chegou na casa da avó, acometida pelo Alzheimer, e a presenciou manuseando suas fezes e as espalhando pelas paredes, deixando o ambiente todo com um odor “insuportável”. Se ele tivesse dois anos de idade, provavelmente não teria asco, pois muitos bebês brincam com as suas fezes como parte de uma exploração natural. Mas aos sete ele já havia introjetado normas de higiene e regras sociais.

Cocô sempre foi associado a sujeira e o ânus a um orifício excretor, sem outra utilidade, portanto não é incomum que a ideia de fazer sexo anal seja de fato desinteressante.

O nojo é uma emoção instintiva, que segundo as teorias evolucionistas, serve a espécie humana como uma proteção do organismo contra a ingestão de alimentos apodrecidos e/ou contaminados por patógenos. Darwin já supunha que o nojo também funcionava como uma potencial solução para problemas evolutivos de ordem sexual, a fim de selecionar parcerias que estivessem livres de doenças, inclusive as sexuais, garantindo benefícios biológicos para a prole.

Hoje em dia é bem mais difícil ter um radar afiado, pois se não há sintoma visível, não há como detectar doenças, inclusive algumas ISTs. Mas para a maioria das pessoas, de fato, a falta de higiene visível em uma parceria pode repelir e desmotivá-las a fazer sexo.

Querem saber a minha resposta diante as específicas informações? A resistência ao sexo anal pode sim ter relação com a cena registrada como nojenta lá na sua infância, mas também pode ser tão somente onde seu nojo se fixou, como um alarme instintivo.

Tem gente que elege barata, lagartixa, perereca, lesma e outros animaizinhos como seres repugnantes. Tem quem não consiga chegar perto de Geleca ou Slime pela sua consistência viscosa, quem tenha pavor de tirar sujeita do ralo da pia. E tem aqueles com gasturas na vida sexual, que não toleram o esperma ejaculado, por exemplo.

De toda forma, respeitando cada incômodo, é bom lembrar que o cocô sem dúvida nenhuma é uma quase unanimidade na categoria ‘nojento’. Outro dia, uma colega confessou que tem tanto asco do próprio cocô ‘pastoso e horroroso’, que chegou a trocar os potinhos no laboratório. Sim, sem pensar nas consequências do resultado, ela entregou para a enfermeira o potinho do marido, com um cocô ‘bolinha e bonitinho’ como se fosse o dela. Manteria sua vergonha em segredo e olharia depois os resultados do marido para garantir o check up médico.

O curioso da vida é que algumas pessoas não são tão acometidas pela emoção de nojo, ou porque seu sistema de ameaça e busca de segurança e proteção não é tão ativo nessa área, ou por já estarem bem adaptadas a vida moderna e higienizada.

No campo sexual, há quem inclusive goste muito das secreções genitais e dos seus cheiros naturais, que também exalam feromônios que são motivadores para a excitação. Para essas pessoas, mesmo que não sejam fãs do cocô, o prazer do sexo anal pode ser superior aos riscos desagradáveis. E sim, uma minoria adora se refastelar na sujeira e se excita com isso. No fim a gente volta para o raciocínio de que somos únicos, cada um tem uma reação, adoração, gastura ou gosto. É amor ou ódio pelo cocô?

 

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Imagem: Uol Universa – Getty Images

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