Ana Canosa – Colaboração para Universa
Desde quinta-feira (2), é possível realizar procedimentos de esterilização voluntária sem a autorização do ou da cônjuge. Ou seja, se você tiver mais do que 21 anos, com filhos ou sem, e decidir pelos procedimentos da laqueadura ou vasectomia, precisará tão somente fazer essa escolha e formalizar o pedido para o procedimento. É uma conquista, diga-se de passagem, pois dá autonomia às pessoas e à maneira de cada um viver.
No entanto, reforço que, embora isso desburocratize o acesso, não torna mais fácil a decisão. Para quem já tem filhos o suficiente, pode ser menos conflituoso, mas para aqueles que não tem, uma dúvida pode aparecer: será que não vou querê-los mais adiante?
Embora uma pessoa tenha o direito de querer ou não exercer a maternidade e a paternidade, quando estamos em um relacionamento de compromisso, essa conversa tem que levar em conta o projeto do casal. Inclusive, quando optam pela esterilização, os casais precisam discutir quem passará pela intervenção.
Já foi a época em as mulheres assumiam tudo sozinhas. A vasectomia é um procedimento até mais simples, feito com anestesia local, em consultório, e, em alguns casos, a reversão é possível. Também não deixa ninguém broxa: a intervenção é feita nos canais deferentes, que estão dentro do escroto —todo o mecanismo de ereção acontece basicamente no pênis. Mas já ouvi tanto esse medo infundado que não adianta nem explicar com base na biologia. É o fantasma do se tornar “menos macho”.
Mesmo os convictos que não querem rebentos recusam a vasectomia ou ficam enrolando as suas parceiras. Alguns não estão mesmo acostumados a marcar médicos e a cuidar da própria saúde sexual, outros são folgados, muitos machistas e tem os que acreditam piamente que a vasectomia faz parte da conspiração feminista contra o mundo masculino —que preguiça desse papo. Mas também suspeito que não estão habituados a pensar sobre paternidade responsável.
Mas, verdade seja dita, para muitas mulheres a laqueadura também parece assustadora. A impossibilidade de exercer a maternidade assusta mesmo que não haja esse desejo. Já tive essa conversa com muitas mulheres. O procedimento acontece na região das tubas uterinas, mas o simbolismo transborda e chega ao útero, à sua função reprodutiva e à identidade feminina. Somos marcadas pela ideia de mulher completa sendo mãe, de experimentar o amor incondicional. Tanto é verdade que a retirada do útero, mesmo em mulheres menopausadas, pode gerar um incômodo racionalmente difícil de explicar.
É possível ser casado e ter uma vida sexual satisfatória?
Leia também no Portal Universa:
A partir de agora, mulher pode fazer laqueadura sem autorização de marido










