Ana Canosa – Colaboração para Universa
Tenho memória de passarinho, e para situações desagradáveis e tristes ela diminui ainda mais. Guardo poucas cenas da infância, mas tenho o registro geral de uma vivência positiva, de quem brincou bastante com as amigas do bairro, que adorava a festa da primavera da escola e se deitava depois do almoço no chão de ladrilhos vermelhos da casa da minha avó materna, que era o lugar mais fresco no verão.
Mas de um punhado de cenas, me chama a atenção lembrar uma passagem, com a filha de uns amigos dos meus pais, que hoje eu não tenho a mínima noção de quem é. Não tínhamos laços fortes, nem convívio frequente. Ela estava em meu quarto e viu uma bonequinha pequena que eu tinha, toda feita de croché, vestido branco com barrado vermelho e um charmoso chapéu. Acho que tinha uma sombrinha também, assim em miniatura, com a estrutura feita de palitos de dente ou algo assim.
Eu sei que a menina cismou com a boneca e pediu para eu dar para ela, e quando eu disse não, ela ameaçou “se não me der, não serei mais sua amiga”. Levou a boneca e eu chorei a noite toda. A ameaça de vínculo funcionou. E eu nunca me esqueci disso, da tristeza, do sentimento de injustiça, da raiva, e de uma percepção, muito rudimentar, de que eu havia sido manipulada. Eu devia ter no máximo 8 anos de idade.
Infelizmente é comum aprender a ameaçar o vínculo afetivo desde a infância. Quantos cuidadores, irritados com as crianças porque elas os frustraram nas suas expectativas (porque demonstraram raiva, desatenção, ou só porque quebraram copos) usam frases do tipo: “vou largar você no orfanato!” Boa parte das vezes —quando se tem alguma vergonha na cara— a ameaça do vínculo não é assim tão descarada e bizarra, mas acontece pelo silêncio de reprovação, os dias de frases frias e cortantes, a distância afetiva, a falta de toque.
As crianças crescem com a sensação de que devem evitar desagradar, de que seus comportamentos podem gerar uma grande tragédia. Excesso de autocrítica, alarme ligado o tempo todo, insegurança diante de figuras de poder, inabilidade de lidar com a própria raiva, embotamento do desejo e da espontaneidade. Há também os que perpetuam a ameaça de vínculo aprendida na infância, agora com seus filhos(as) e pares.
Nas relações de compromisso, é a coisa mais comum. Diante dos tão costumeiros desafios para chegar a acordos, ceder e lidar com a inevitável frustração de não ter o que se quer, pessoas vão dormir na sala, ficam uma semana sem conversar, passam a fazer coisas que não são habituais e que normalmente deixam a parceria insegura (como sair sem avisar, não mandar mensagens). Há também os que ameaçam verbalmente: então vamos nos separar —os que saem de casa, voltam, saem de casa, voltam— em uma espiral infinita de ameaça e reconciliação.
No sexo isso também acontece com frequência, quando alguém entende a recusa sempre como algo pessoal, sem levar em conta outras tantas situações da vida, como as dores de cabeça, o estresse, a falta de sono, os hormônios, preocupações, ou uma conjuntura de fatores. Começam as indiretas, o mau humor, a rispidez, as frases tortas, “você deve estar saindo com alguém”.
É interessante como a ameaça de vínculo leva as pessoas a ficarem aprisionadas em si mesmas, seja o inseguro que fica o tempo todo achando que fez algo errado, seja o perverso, que manipula para ter controle sobre o outro e levar vantagem. E como o amor requer sair de si mesmo para ir ao encontro da alteridade do outro, uma relação dessa natureza para nada mais serve do que reproduzir as feridas infantis.
Leia também no Portal UOL Universa: https://www.uol.com.br/universa/colunas/ana-canosa/2021/11/17/entao-vamos-nos-separar-ameaca-de-vinculo-reproduz-feridas-infantis.htm
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